
depois da maravilhosa leitura de O Lugar do Escritor, de Eder Chiodetto [Editora Cosac & Naify, 2002, São Paulo], neste último feriado longo, minha cabeça andou à roda. não pude deixar de me imaginar, num supremo ato de jactância e bufonaria, sendo entrevistado para falar de coisas bonitas e empoladas. eu era um escritor!
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eu seria clicado aqui no velho escritório, disparando fleugma pelos olhos, dândi até não mais poder. depois, para explicar a azáfama do ambiente, diria que este caos me faz bem, deixa-me à vontade para escrever, e que muito me satisfaz estar em contato com quinquilharias que ninguém imagina ter algum valor, como uma pirâmide de pedra sabão, latas de chá Twinnings vazias, a coleção de cortiças de vinho, pesos de papel e velas anti-fumo.
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mostraria ao jornalista meus livros e discos e, por fim, a bancada aí da foto, onde costumo me debruçar para escrever poemas. ele, por educação, acharia linda a bagunça, mal contendo um risinho de canto de boca. mas eu não me importaria. os amigos enxergariam minhas pequenas vaidades com benevolência.
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Carlos Henrique Leiros
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[o lugar do escritor e seu caos peculiar (carlos henrique leiros)]
legenda [l. to r.]: cachimbo; fumo borkum riff de cereja, tipo cavendish; agenda preta de endereços; caderninho para anotações de viagem, em capa vinho, tipo pocket; pastilhas de hortelã; óculos bulget; caneta stabilo, cor vinho; caneta nanquim uni pin, descartável; tubo de cdrs; relógio quadrado tissot [de estimação]; puzzles like you – novo cd do mojave 3; folha de papel com poema inédito e recusado; embaixo da folha de papel, caderno de anotações moleskine, tipo notebook plain journal.