sábado, dezembro 29, 2007

férias...enfim!


Férias, enfim!
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Sim, meus queridos amigos, estou saindo de férias. Confesso que nunca as tive tão merecidamente quanto agora. 2007 foi um ano de trabalho duro, persistente, sem trégua, onde, nos últimos meses, a ginástica mais ferrenha foi aquela de administrar o tempo, o pouco tempo que me sobrava depois do cumprimento de todos os afazeres mundanos. Em função disso, peço sinceras desculpas a todos quantos não pude visitar regularmente, como gostaria e deveria.
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Conforta-me saber, no entanto, que cheguei ao final do ano, dentro do que me propus aqui, logo quando decidi habitar o Blogspot: fazer do Almofariz um espaço, senão perfeito [porque a perfeição não existe], ao menos digno de ser lido. E acho, sem modéstia, que desempenhei bem o papel.
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Trouxe comigo pessoas especiais; encontrei outras também especiais por aqui. E me considero feliz com todo esse somatório de amizades, de informações trocadas, com esse alimento intelectual em torno do qual estivemos reunidos. Que 2008 nos traga ainda mais satisfações e nobres conquistas, com a saúde que nos sustenta o corpo e a sensibilidade que nos sustenta a alma.
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Volto no finalzinho de janeiro/começo de fevereiro, com algumas novidades, poemas escrevinhados no caderno, idéias fresquinhas. Chegou o momento de me desligar um pouco da azáfama citadina e me permitir alguns luxinhos a mais, como caminhar na praia, ouvir música no silêncio completo, escrever, fumar cachimbo ao cair da tarde, exagerar um pouco nas xícaras de chá e, claro, acompanhar a filhota nas aventuras típicas das férias. São coisas pequenas, mas que para mim possuem um sentido enorme.
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Deixo a todos o meu abraço, já com saudades.
O Almofariz entra em recesso momentâneo.
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Sejam felizes. Tenham dias felizes. E comportem-se!

Até a volta.
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Carlos


[early ride (f. monteiro)]

terça-feira, dezembro 25, 2007

seis meses de almofariz - com prêmio


Completo seis meses de vida com o Almofariz (03/07/2007 – 03/12/2007), período em que considero ter feito um trabalho, senão perfeito, ao menos digno de ser lido. Sinto-me, pois, em casa, com amigos que carreguei junto a mim, e outros mais que se somaram, numa convivência respeitosa, permeada por interessantes trocas de informações, de interesses, como só as amizades raras conseguem nos proporcionar.
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São seis meses que, para mim, pareceram dias, de tão rápido que transcorreram. Recebi tantas visitas, numa acolhida que muito me sensibilizou. E encerro o ano de 2007 com a certeza de que a Poesia e o bom gosto reinaram sobre a mediocridade.
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Nada melhor, portanto, do que encerrar uma jornada anual com a notícia de outro prêmio. Dessa vez foi o “Eu Tenho Um Blog De Elite”, comenda idealizada pelo blog PutsGrilo.com, e que a amiga Erika Murari tão generosamente me concede [o primeiro foi o emblema do Oncotô, aí ao lado]. Fico-lhe grato, amiga, por mais essa deferência.
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Bom, agora vem a parte difícil do negócio, que é escolher os 5 blogs a quem conferir a presente homenagem. Pautando-me pela justiça, e levando em consideração que, por ocasião do último prêmio recebido, não pude agraciar a todos os que admiro por seu trabalho, faço com muita alegria a indicação dos seguintes recantos:

http://adamaoculta.blogspot.com
http://casadeleitura.blogspot.com
http://devaneiosaovento.blogspot.com
http://fabricadehistorias.wordpress.com
http://tecendomomentos.blogspot.com


Seus respectivos proprietários:

.Lívia Araujo: Com poucos meses de atuação na blogosfera, Lívia tornou o A Dama Oculta leitura obrigatória para pessoas culturalmente exigentes. Seus poemas são a grande atração!

.Carol Timm: A dona do Casa de Leitura nos apresenta a Poesia Universal, sempre com belas imagens de acompanhamento. Vale a pena conferir e deslumbrar-se!

.Edna B.: Impossível dissociar o Devaneios Ao Vento da personalidade da sua próprietária. Edna, criatura sensibilíssima e muito observadora, leva-nos ao contato com a Poesia dos Mestres. E assim nos sentimos em casa!

.Alexandre Costa: Dos templates criativíssimos à variedade incessante dos assuntos, o Fábrica de Histórias é um lugar para chegar e ficar. O Alexandre, como mestre de cerimônias, é impecável!

.Nena Dolores: Depois de muita insistência, a amiga Nena nos deixou a par do Tecendo Momentos, blog que lidera com a suavidade e a simpatia de sempre. Trancrições literárias escolhidas com esmero são o forte daqui.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

limbo


se já morremos, onde o limbo,
as vozes prometidas, as cortinas,
e toda a estranheza que nos consolaria?
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a aveludada treva, por certo, mais forte
que o fulgor da luz, fê-nos pousar
sobre a crueza das manoplas?
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nada, contudo, vai nos impedir,
de nos mantermos tão imaculados
quanto as rosas que um dia emolduraram
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o rosto ainda imberbe de Capote,
depois que Beaton o banhou, diáfano,
com a mesma luz dos halos emanada.
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não haverá mais treva, sobretudo
a lágrima furtiva, e a idéia
de que o limbo é uma parede fria
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e nua de cortinas, adereços,
sem vozes sussurrando em cada dobradura,
sem a estranheza que nos prometeram.

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Carlos Henrique Leiros
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[weeki wachee (toni frissell)]

segunda-feira, dezembro 10, 2007

colóquio


a mão e o olhar acariciam
- enquanto escrevo à luz –
o ventre da palavra.
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vedes, Phineas,
o grito da primeira boca?
mais uma geração arfa e desperta!

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Carlos Henrique Leiros
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[muddy waters (f. monteiro)]

quarta-feira, dezembro 05, 2007

sobre a montanha


sobre a montanha estava eu somente,
agudo e em silêncio como tu, Phineas.
os dois pés fincados na gramínea.
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e tudo parecia longe, os gritos desgarrando,
e não se viam mais as fumarolas
nas chaminés da casa do teu pai.
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dirias que a vida anda suspensa,
e que polias invisíveis
te sustentam?
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digo-te eu, Phineas, que não conheço o mundo,
mas da montanha enxergo o ocidente.
sigamos para lá com nossos olhos.
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e bem depressa, antes que venham as cãs,
aquela vastidão de não ter mais vontade,
e inúteis sejam voz e sentimento.

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Carlos Henrique Leiros
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[the wanderer above the sea of clouds (caspar david friedrich)]

sábado, dezembro 01, 2007

diz que até não é um mau blog!


foi com muita alegria e uma ponta de orgulho que soube da notícia.
a amiga e poetisa Lívia Araújo [www://adamaoculta.blogspot.com]havia recebido o prêmio deste tag do poeta Vieira Calado. Diziam as regras: cada agraciado teria o dever de escolher sete blogs, com a finalidade de outorgar-lhes igual prêmio. a lista foi feita e o Almofariz figurou entre eles.
fico-lhe imensamente agradecido, Lívia. abraços!!!

abaixo seguem as regras:
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Eis os parâmetros inerentes à condição:
1. Este prêmio deve ser atribuído aos blogs que consideras serem bons, entende-se como bons os blogs que costumas visitar regularmente e onde deixas comentários.
2. Só e somente se recebeste o prêmio "Diz que até não é um mau blog", deves escrever um post :
- Indicando a pessoa que te deu o prêmio com um link para o respectivo blog;
- A tag do prêmio;
- As regras;
- E a indicação de outros 7 blogs para receberem o prêmio.
3. Deves exibir orgulhosamente a tag do prêmio no teu blog, de preferência com um link para o post em que falas dele.
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eis os indicados:

www://ancoraseasas.blogspot.com
www://bertahelena.blogspot.com
www://clickportugal.blogspot.com
www://fermaga.blogspot.com
www://girapemba.blogspot.com
www://oncoto.erikamurari.com.br
www://ovoodasborboletas.blogspot.com

quarta-feira, novembro 28, 2007

o lugar do escritor e seu caos peculiar


depois da maravilhosa leitura de O Lugar do Escritor, de Eder Chiodetto [Editora Cosac & Naify, 2002, São Paulo], neste último feriado longo, minha cabeça andou à roda. não pude deixar de me imaginar, num supremo ato de jactância e bufonaria, sendo entrevistado para falar de coisas bonitas e empoladas. eu era um escritor!
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eu seria clicado aqui no velho escritório, disparando fleugma pelos olhos, dândi até não mais poder. depois, para explicar a azáfama do ambiente, diria que este caos me faz bem, deixa-me à vontade para escrever, e que muito me satisfaz estar em contato com quinquilharias que ninguém imagina ter algum valor, como uma pirâmide de pedra sabão, latas de chá Twinnings vazias, a coleção de cortiças de vinho, pesos de papel e velas anti-fumo.
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mostraria ao jornalista meus livros e discos e, por fim, a bancada aí da foto, onde costumo me debruçar para escrever poemas. ele, por educação, acharia linda a bagunça, mal contendo um risinho de canto de boca. mas eu não me importaria. os amigos enxergariam minhas pequenas vaidades com benevolência.

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Carlos Henrique Leiros
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[o lugar do escritor e seu caos peculiar (carlos henrique leiros)]



legenda [l. to r.]: cachimbo; fumo borkum riff de cereja, tipo cavendish; agenda preta de endereços; caderninho para anotações de viagem, em capa vinho, tipo pocket; pastilhas de hortelã; óculos bulget; caneta stabilo, cor vinho; caneta nanquim uni pin, descartável; tubo de cdrs; relógio quadrado tissot [de estimação]; puzzles like you – novo cd do mojave 3; folha de papel com poema inédito e recusado; embaixo da folha de papel, caderno de anotações moleskine, tipo notebook plain journal.

sexta-feira, novembro 23, 2007

o naufrágio da intenção


entre a palavra dita e o silêncio,
existe o naufrágio da intenção.
aquilo que nos corrói e empurra porta afora
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sem cicerones e sem rota,
como nuvens em fuga.
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não há poema que não se distenda
até o desmaio, espichando suas pernas de agrippa,
na última busca por luz.
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mas eis que o lume se apaga,
caprichosamente, sem que sejam ouvidos
os nossos arranhões à porta.

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Carlos Henrique Leiros
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[contraluz # 2(josé boldt)]

domingo, novembro 18, 2007

as pequenas descobertas


sabias que esta noite eu desejei
que a vida, seguindo um simples capricho,
passasse a desvendar todos os atalhos,
e nos conseguisse encontrar?
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para trazer à minha volta,
o teu sorriso de pólen e a falsa
excitação do abismo sob os pés.
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que todos os cabelos ao luar revoltos,
se transformassem em borlas de algas tenras,
passamanaria entre nossos dedos.
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foi quando ouvi o choro dos ciprestes,
e abrindo os olhos,
eras novelo perto do meu rosto,
espelho opaco mas sensível
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às minhas mãos em cunha,
buscando nos teus ângulos,
a presença do sopro que me anima:
a tua luminosa quietude.

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Carlos Henrique Leiros
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[tree with loopy branch (tim holte)]

terça-feira, novembro 13, 2007

as armas do poeta


o poeta não existe como carne exposta,
aos olhos curiosos e aos bons-dias.
o seu ofício é erigir pirâmides,
com floresta ao derredor,
e tão longínquas quanto as velhas lendas.
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ao ser tocado o poeta adormece
e murcha. à cupidez dos dedos se entrega.
mas nada o abrange, nada o circunscreve.
é como a luz filtrada por zimbório.
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e em vertigem de incontrolável ardor,
o poeta é único. e a poesia,
fendendo-se à luz que dela própria emana,
cinge-lhe a alma, e cinge-lhe também,
com imaculada opa, o seu entendimento.

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Carlos Henrique Leiros
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[where (marino thorlacius)]

quarta-feira, novembro 07, 2007

das musas que se foram


cinzas lancei,
no dia em que as musas se calaram,
e sacudindo a cor de suas vestes,
seguiram meu olhar, em direção ao norte.
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conservo delas algumas lembranças:
beijos roubados na escuridão,
de lábios vagos e sobressaltados,
como mexilhões entreabertos.
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feliz não digo que fiquei, mas quando
me vejo saciada em cinzas e inocência,
sinto nos ossos, nervos, carne, poros,
como se houvera nascido repleta.

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Carlos Henrique Leiros
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[salome (ivan pinkava)]

sexta-feira, novembro 02, 2007

a derradeira aljôfar


diz-me teu canto, tua lágrima,
muito mais do que beleza ou estigma,
de caminho aquoso rumo à boca.

diz-me bem mais, se jaz em tua fronte
o vau de rio seco.
o teu pranto fluiu, mas não morreu.

ainda vejo a derradeira aljôfar,
se debruçar no parapeito das tuas maçãs,
para esvair-se.

e revelar o âmago de tudo:
onde água em fuga, hoje é tristeza apenas,
de amargo canto e incontrolável gosto.

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Carlos Henrique Leiros
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[winter's teardrop (phil gaines)]

domingo, outubro 28, 2007

estudo para um desejo à toa



meus pés sobre o linóleo e um bocejo longo,
se antecipando à quietude farta,
e quase tumular da vésper em alvos flocos.
há pouca luz, há folha contra folha.
um livro, a chávena, tenho tudo a postos,
e uma vontade insana de me abandonar.

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Carlos Henrique Leiros
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[le parc & le parc II (no credits)]

terça-feira, outubro 23, 2007

dádiva


como cartas sussurradas,
os anjos adormeceram.
dei-lhes – entre alguns afagos –
a vigilância do mundo,
a sensação dos dedos finos nos cabelos.
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em troca jogaram guizos,
de suas campânulas de sonho,
que me caíram na fronte,
em lindas pétalas de brancura,
como quando choram os jasmineiros

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Carlos Henrique Leiros
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[inside series (magda marczewska)]

quinta-feira, outubro 18, 2007

cherishing cherries


lado a lado reunidos.
somos gomos, somos sumo.
cereja fendida de amores.
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no pote a última fruta
escorre, e se esvai como lágrima,
pelos dedos, em rastro de mel na boca.
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declínio suave e surdo.
é seiva de bordo nobre,
em nossa pele de tapeçaria.
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que se espraia e que repousa.
nós somos sumo dos gomos.
cereja-sangue fendida.

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Carlos Henrique Leiros
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[white profile (ilkka keshinen)]

sexta-feira, outubro 12, 2007

cidade alta


eu queria falar do que me roça à língua.
uma ilusão qualquer, meio circense,
e prenhe de improváveis óticas.
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como um passeio por tuas vielas,
cidade minha, hera sobre as telhas,
e algum lodo nos muros furtivos.
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vais acordando sobre o rio torto.
naquelas águas mortas rumo ao mar.
e faz-te a corte o galo da igreja.
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que almeja um dia ver-te em novo garbo,
com teus cabelos de vastos anéis,
bailando ao sol.

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Carlos Henrique Leiros
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[it was a coldbright day in april (rebecca kitchin)]

domingo, outubro 07, 2007

toda mulher


a maviosa ponte que irmana extremos,
de perplexidade e encanto,
é como uma mulher em seu leito.
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efígie de silêncio e ardor,
que se conserva fresca como as limas,
colhidas rente à aurora, e castas.
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enlevas meu olhar, mulher que arqueia
os braços, outra ponte.
e muitos, como eu, nela se perdem.
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com um sinal de olhos dar-me-ias,
a única ventura de, à ponte,
poder me debruçar e adormecer?

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Carlos Henrique Leiros
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[feeling yellow series (lilya corneli)]

terça-feira, outubro 02, 2007

notívaga sombra


temo que anotes,
no suor velado do teu cálice,
que o contar dos dias me apavora.
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e que eu deixo o rosto,
pender sobre o peito sem fôlego,
para que essas lágrimas não sejam de ninguém.
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vou confundi-las com chuva,
e me ocultar nas sombras.
sobre meu corpo deitar-se-ão véus.
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de modo a que não mais me reconheças,
no meio de tantos assobios,
de tantos trapos açoitados,
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na longa noite que me envencilhou.

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Carlos Henrique Leiros
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[cherry garden 1 (vladimir clavijo telepnev)]

quarta-feira, setembro 26, 2007

sobras da noite


a noite é saudade que não se mensura,
após fechada a porta.
quando o silêncio assume os semblantes da estranheza,
e o traçado das lesmas na parede
é consumido, como tudo em volta.
não sinto o coração batendo ao peito.
os casulos das horas se fecharam.
mas tenho tudo, os sobejos da noite:
a canção dos grilos,
o trabalho contínuo da poeira,
e a inutilidade dos biscuits.

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Carlos Henrique Leiros
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[moon and half dome (ansel adams)]

sexta-feira, setembro 21, 2007

a dança lunar


basta-me o afã
da visão que se alastra
e não conhece em ti qualquer fronteira.
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pois sei precisamente
aonde acenam as flâmulas
que demarcaram o fim do meu delírio.
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em dubiez, reclina-te,
esfalfa-te, pois que o último reinado
sobre esta terra se extinguiu, silente.
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a nossa dança lunar é quase heróica
e na minha visão cristalizada
estás, sempre estarás, crescente.
[minguante]

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Carlos Henrique Leiros
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[maki (erick ellerman)]

sábado, setembro 15, 2007

inflara o homem desnudado seu peito de plumas


inflara o homem desnudado
seu peito de plumas
contra as agruras do vento
e vinham-lhe – de todos os recantos –
cheiros de viagem interrompida
com trens a debulhar
nas estações, ruindo de cansaço,
o fardo das entranhas
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o homem confiara ao seu próprio silêncio
- ante o tremeluzir das plumas –
que o som de cada trem imaginado,
vindo no vento, ao fim,
agonizava como uma nuvem crua,
extrema de sentidos.
uma memória dantesca
do tempo em que o amor o calcinara

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Carlos Henrique Leiros
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[poema livremente inspirado na figura de Pygar]

[intervenção com puzzle e desenho a stabilo art nº 88-89 pp (Carlos Henrique Leiros)]

segunda-feira, setembro 10, 2007

poema do claustro


foi como um clangor
teu despertar, abrir de olhos,
acolhendo a quietude esférica
ao tempo em que inflaste espáduas
na tua cela abobadada e nua
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vieste amar cada parede e arco,
a ânfora, a água,
refletindo-te o gestual vincado
e os ramos tristes do azevinho
que a poder das mãos arrebataste
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aí circulas, sombra que do monge
a sisudez de rosto e vestes guarda
bebes da água, põe-te a gosto, é fato
que os dias passarão
com as mesmas nuvens dos teus olhos

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Carlos Henrique Leiros
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[reversal blessing (nathan brusovani)]

quarta-feira, setembro 05, 2007

crisálida


a alma que canta
em pupa, risonha e morta,
como a febre de todas as manhãs
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traz renovada crusta
e os filamentos das asas
por onde - dizem - luz e vida se imantam
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o sonho quebrando a casca
envolve
de nobre seda a visão
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agora tudo farfalha
e pulsa, adelgaçadamente,
como vertigem branca

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Carlos Henrique Leiros
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[out of darkness (debbie caffery)]

sexta-feira, agosto 31, 2007

folhagem


para engolir-te as cerdas
e desmentir a aspereza que teu toque
me provoca
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sorvo nas mãos o filtro do teu verde
macerado em todos os alguidares
qual pomo de luz baça

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Carlos H. Leiros
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[the mother of all perfect]

sábado, agosto 25, 2007

face d'ouro


oh face como se fora d’ouro
alça-me às bordas
onde o sono encontra o fim e o dia avança
suspende-me
por sobre abismo e abismo
com intuitiva força
e eu sendo algum brinquedo
que de suspenso vê melhor o mundo
a cor de cada sombra desenhada
e tu, como se fora d’ouro, frente a mim
face com face, a pele junto aos ossos
hás de dourar-me inteiro com teu fogo.

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Carlos Henrique Leiros
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[no credits]

segunda-feira, agosto 20, 2007

poeta e plenitude


imaginei poetas andando com árvores
que lhes cresceram por dentro
nos ramos se vêem engastados
as cicatrizes da agonia
e os gonzos
de onde pendem lágrimas feito pérolas
como se fossem de faiança antiga
.
as árvores, algumas quase exaustas,
de sono ancestral
vão contando os sussurros dos seus donos
e talvez se interroguem
nas porfias de todas as raízes
sobre os comichões
que anunciam a palavra germinada
o porejar vindouro da idéia
quando os poetas adormecem
.
e se eles sonham
entorpecidos por uma brisa
que de longe os precipita mar afora
dos seus ramos internos brotam flores
que pensamentos nutrem
acariciam e depois desfazem
como a areia soprada por siringes
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ficam-lhes as árvores
a paz de uma canção silenciada
a vida em nós, em lenho que range
e uma idéia que teima em não ser última.

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Carlos Henrique Leiros
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[trees (keith gerling)]

quarta-feira, agosto 15, 2007

o arcanjo e os versos


que fazes mais, tenaz arcanjo meu,
senão anunciar quão fúteis são
os versos sobre os quais descanso
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a fronte, essa simplória fronte
imberbe,
e a boca que me encerra as vozes?
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se mais inúteis tua força e vaticínio,
tenaz arcanjo meu, pois estes versos,
não tem teus braços fome de alcançar.

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Carlos Henrique Leiros
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[come! come! and seek us here, in these cool deeps (de Hayne's Poems, do poeta Paul Hamilton Haynes, 1830-1886)]

sexta-feira, agosto 10, 2007

uma vestal


vais...
sob a ritmada ondulação dos panos
com poesia envolta
em ramos de lavanda
que a tarde é pura ardência
e um gládio me afivela
como a um proscrito humilha a bastardia
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vais...
que já ruiu a última cidadela
não percebeste a lida dos arautos?
morram suspiros, poesia feneça
encheu-se o ar de uma fumigação
seguindo noite afora, olor de zimbro
e a solidão nos revestiu por dentro

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Carlos Henrique Leiros
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[la poupee (hans bellmer)]

segunda-feira, agosto 06, 2007

de um caderno de anotações



não é para aplacar uma
incessante febre pelo novo,
por requinte, que este
caderno passou a existir.
existe porque dele preciso.
existe por uma questão que
vai além da disciplina.
uma vez que é através dele
que também respiro!

[caderno de anotações - frontispício - junho, 30, 2007]

terça-feira, julho 31, 2007

a dois mortos


refugo os meus olhares todos
à vossa presença de chuva outonal
atiçando farrapos de velas
bandeiras nos caibros se assanham
como a dizer que a paz já não há
.
foi-se a manhã
foi-se a voz aos fiapos
junto com minha sombra numa nuvem em fuga
.
imagens restaram guardadas
no vácuo dos sonhos
em reflexos num veio lacrimal que escorre
a indagar do mofo
o que foi feito de vós


para Bergman e Antonioni, mortos de ontem e de hoje...

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Carlos Henrique Leiros
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[poppies no. 2 (Peter Blume)]

quarta-feira, julho 25, 2007

junco


a seiva vergada permite andaimes ao céu
por hiatos cintados
que rememoram ventos e ruídos
ascendendo olhares em seus veios
.
a penugem lacustre descortina
um mundo de cicios
que arrastam seus gadanhos n’água
nessa paisagem onde se dorme ou fenece
.
e mesmo o lodo em paciente faina
presta a servil mas nobre atividade
de enfatizar a beleza do junco
e suportá-lo...
.
como um vão suporta infinitos degraus

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Carlos Henrique Leiros
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[no credits]

terça-feira, julho 17, 2007

a face do desejo


inspiro o último aceno
o recuo do vento em concavidade sobre o rosto
quando enfim domaste a tua voz minguante
à recatada forma de dizer adeus
.
e o teu hálito de encanto anunciou
enevoando, entre solene e triste,
o tênue véu do meu entendimento
.
que para além da face de todo desejo
existe um gosto seco e avaro
que desce pelas angusturas

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Carlos Henrique Leiros

[no credits (Trina McKillen)]

quinta-feira, julho 12, 2007

ascender


dize, pois, de uma vez por todas
se queres te ombrear às facas
às pérfidas zagaias que o destino aponta
ou simplesmente adormecer em lençóis alvos
nos vestíbulos preparados pela dúvida
quando as noites silenciam
.
dize, também, e desta vez não tardes
se vais ao cabo de alguns passos trôpegos
galgar degraus da minha escadaria
em espirais que n’alma refugiam
uma sustentação de anseios, ou se estás
mais uma vez fadada ao triste olvido
.
dize...
e todas as portas se te fecharão

.
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Carlos Henrique Leiros

[no credits]

sábado, julho 07, 2007

a canção submissa


tens por carícia um contato de folha nodosa
e dispersa e crestada, és assim
como a rosa esquecida, a canção submissa
que ouvida esta noite me fez despertar
e correr pelos muros febris
pela terra inconclusa
.
se o vento dissolve tua melodia
eu me perco sem volta
eu me sinto afundar
sem saber que a canção rarefeita foi feita em meu nome
nos muros febris
por entre os filodendros

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Carlos Henrique Leiros

[big issue[?](rebecca kitchin)]

terça-feira, julho 03, 2007

sinuoso andar


deixo correr meus dedos sobre o ábaco das tuas costelas
em sinuoso andar
meneios de chalupa que deriva
buscando ancoradouros, reentrâncias
como um visitante na ancestral Hiperbórea
a contemplar suas cúpulas e minaretes
.
receio repousar perdendo a hora
a contagem das borlas inexatas que te dividem os flancos
o circular das conchas em sifão
se quando envergas arrebatadora
conduzes dedos, palmas, unhas feito côdeas
a minha mão inteira contra a tua
.
meu sinuoso andar vagueia então
se destribando
não mais cidade de luzes eternas
a felicidade adormeceu
enfim

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Carlos Henrique Leiros

[no credits]

quinta-feira, junho 28, 2007

ato findo


ato findo o amor
é um longo e extenuante abraço
casulo vazio de vida
como as borbulhas em vão
de um afogado que se enreda em algas
e ninguém vê
e ninguém pode imaginar
que há beleza em se esvair
em se deixar levar

.
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Carlos Henrique Leiros

[dreaming (ilkka keshinen)]

terça-feira, junho 19, 2007

a flor exangue


Primeiramente a haste se prolonga no espaço
E desabrocha como paz fracionada
Em lâminas que transbordam gentileza
São olhos abertos numa réstia de nuvem
Sob nossos pés que, curiosos, cismam
De esmagar a flor

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Carlos Henrique Leiros

[flower (robert mapplethorpe)]

sexta-feira, junho 15, 2007

algumas palavras sobre a estrada do sol



é de manhã
vem o sol
mais os pingos da chuva que ontem caiu
ainda estão a brilhar
ainda estão a dançar
ao vento alegre que me traz essa canção...

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Quando criança, estes versos cantados por meu pai me pareciam insípidos. Também pudera! Poesia tinha algo de maçante naqueles tempos, e a infância era como um mapa sem fronteiras, uma vasta extensão de terra por onde eu podia caminhar sem risco, sem surpresas. Germinavam em mim ânsias de estar no topo do mundo, com rosto imberbe e tudo, cabelos longos partidos ao meio, na bicicleta que não conhecia enfado. E a receita da felicidade estava na ponta da língua.
Meu pai cantava a Estrada do Sol, gravação que ele tinha na voz da divina Elizeth Cardoso. Era feliz com algum grisalho nos bigodes, dirigindo nossa wagon e tamborilando os dedos no volante Deus meu, uma poesia, sim, mas para mim tão fora de moda, cheirando a naftalina. Tudo, porém, desvaneceu-se com o passar do tempo, a inocência infantil e as rusgas bobas sobre a Estrada do Sol. Perdeu-se a velha fita cassete com a gravação. Mas não varri a música da memória. Faz um bem danado lembrar.

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...vamos sair por aí
sem pensar no que foi que sonhei
que chorei, que sofri
pois a nossa manhã
já me fez esquecer
me dê a mão, vamos sair pra ver o sol
o sol...o sol...

Ch

[reflections (arthur negus fuller)]

domingo, junho 10, 2007

a escrita


A arte de escrever me apareceu quase como um instinto, uma espécie de teima consciente. Penso ser natural que após dominar a fala e a leitura, o passo seguinte seja aprender a escrever. Não feito um autômato que, programado para obedecer algumas regrinhas, ponha-as em prática numa atividade qualquer. Mas que num dado momento, faça a alma uma coneção com a memória e o resultado seja, enfim, a idéia expressa e encadeada.
Hoje eu costumo pensar em versos, embora não tanto em rimas. O exercício do olhar poético acabou me transformando numa pessoa que aprendeu, antes de tudo, a se enternecer com mínimas coisas. Coisas que ao raciocínio mundano parecem sem importância.
Sabe-se que a articulação perfeita das palavras possui força incomensurável, e é justamento isso que me toca. A ocasião suprema, os instantes em que a poesia nas palavras e nos gestos é capaz de tolher a voz.
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Ch


[graphitte on paper (doris hutton auxier)]

quinta-feira, junho 07, 2007

uma vontade vinda do nada



Deu-me hoje uma vontade quase incontrolável de ouvir Ma Kelly’s Greasy Spoon, do Status Quo. Não que o Status Quo signifique alguma coisa de importância vital. Longe disso. É um álbum tão comum que às vezes parece colidir com a mediocridade, se formos levar ao pé da letra aqueles arranjos simplórios, a colcha rítmica indolente, os vocais quase sem nenhum atrativo. Contudo, a despeito de todos estes senões, eu quis ouvir Ma Kelly’s Greasy Spoon. Poderia chamar de um surto bobo de nostalgia, uma tentativa deliberada e estapafúrdia de submeter os ouvidos a uma sonoridade opaca, que não causa enlevo ou deleite. Meu comportamento cabe em qualquer adjetivo malsão. Mas eu quis ouvir o disco. E ouvi.
Confesso que gosto do título e da capa. Remete-me àqueles restaurantes ingleses suburbanos, que servem enguias e miúdos de ovelha no cardápio, ao burburinho de transeuntes motejando um forte acento cockney “cuz i luv yu” e bla-bla-blá. Sinto-me inserto neste ambiente, e o nome soa como se mantra fosse...ma kelly’s greasy spoon, ma kelly’s greasy spoon...
A capa é linda, com aquela senhora Ma Kelly de cigarro pendente da boca, num balcão grudento. Seu rosto é vincado de tristeza, como se estivesse condenada a um ofício menor por todas as existências. Afinal de contas, são anos e anos atendendo proletários fugidos do fog de final de tarde. O bar sempre é a última parada. Há muitas mágoas por encharcar.
Quando o disco toca, o que se ouve é Blues de branco cheirando a simplicidade. Um mergulho na alma daquela gente de capotes puídos e mãos castigadas.

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Ch

domingo, junho 03, 2007

twisted


vê-se a escada da miséria

fauces hirtas...famulentas

enquanto pratos sobejam

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[him, # 1(Ijeoma Iheanacho)]